Opinião

O sofá não se ocupa sozinho

Por Koala · especialista em descanso

O meu humano precisa de acabar tudo antes de se sentar. Estou à espera de descobrir quando é que isso acontece.

Há um lugar no sofá que apanha sol entre a janela e a almofada grande. É um lugar difícil de conseguir. Exige observação, pontualidade e alguma disponibilidade para fingir que não ouvi chamar.

Eu trato disso.

O meu humano, pelo contrário, passa pelo sofá e diz:

— Quem me dera ter a tua vida.

Depois continua a andar.

É uma das coisas que mais me intriga nos humanos: identificam uma boa ideia, comentam a boa ideia e vão fazer outra coisa.

Hoje, por exemplo, anunciou que ia descansar um bocadinho. Trouxe uma manta, acertou a almofada e sentou-se ao meu lado. Parecia bem encaminhado.

Durou pouco.

Primeiro, lembrou-se de ir buscar água. Depois viu uma coisa na cozinha. Não sei que coisa era, mas aparentemente exigia abrir três gavetas. Quando voltou, já trazia o telemóvel e uma expressão de quem tinha recebido trabalho pela torneira.

Eu, entretanto, tinha ocupado o espaço.

Não por maldade. Um lugar quente não pode ficar à espera de uma pessoa que ainda está a decidir se tem sede.

Os humanos dizem muitas vezes que vão parar «quando acabarem isto». O problema é que o «isto» deles tem uma capacidade de reprodução extraordinária. Começa numa mensagem e, quando dão por ela, estão a comparar preços de uma coisa que nem sabiam que precisavam.

A minha organização é mais simples. Há o passeio. Há a comida. Há assuntos à janela que merecem acompanhamento. E há momentos em que me deito.

Não faço uma reunião comigo própria para avaliar se mereço.

Também não tenho nada contra sair. Gosto de uma volta bem dada, de encontrar os conhecidos e de perceber quem passou por onde. Mas, quando regresso, não sinto necessidade de compensar o passeio com mais quatro atividades.

Posso simplesmente ficar.

Agora que chegou novembro, o meu humano começou a dizer «hoje está mesmo um dia de sofá». Fico contente por finalmente reconhecer o potencial do móvel. Só não percebo porque é que precisa de consultar o céu para se sentar nele.

Num destes dias, conseguiu.

Deixou o telemóvel na mesa, encostou-se e pousou a mão no meu lombo. Eu tinha a cabeça na almofada. Ele tinha os pés esticados. Durante uns minutos, ninguém foi buscar nada.

Depois perguntou:

— Estás bem aí?

Estava. Estava desde as duas e vinte.

Aproximei-me um bocadinho, o suficiente para ele perceber que podia ficar. É importante dar algum reforço aos humanos quando fazem uma coisa bem.

Naturalmente, agora pensa que aquele lugar também é dele.

Não vou estragar o progresso com uma discussão sobre propriedade. Cabe uma pessoa na ponta. Desde que não mexa na manta.

E, se se levantar, já sabe.

— Koala

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