
Por Ziggy · Cultura
★★★☆☆
A Time Out deu três estrelas a Heart of the Beast. Pareceu-me sensato. São suficientes para recomendar um filme sem termos de telefonar a ninguém depois para pedir desculpa.
Foi menos sensata no entusiasmo pelo pastor-alemão. A crítica humana tem uma fragilidade conhecida: um cão inclina a cabeça e passam imediatamente a discutir a complexidade da interpretação. Eu faço isso quando ouço abrir uma embalagem. Nunca me chamaram sublime.
A Sight and Sound elogia os olhares de Odin. Admito que sejam expressivos. Mas convém distinguir uma personagem atormentada de um ator a acompanhar um biscoito fora de campo. Não estou a dizer que aconteceu. Estou a pedir rigor.

O colega tem presença. Tem gravidade. Tem umas orelhas que parecem ter frequentado o Conservatório. Falta-lhe, por vezes, libertar-se dessa compostura de quem pode interromper a rodagem para verificar o seguro do carro.
E a concorrência é severa. Lassie tornou a preocupação uma arte. Snoopy fez da casota um gabinete de pensamento. Scooby-Doo passou uma carreira a demonstrar que o sobrenatural perde muito encanto quando se consulta o registo predial. Beethoven nem precisava de um grande plano. Precisava que afastassem os móveis.
Odin chega a esta tradição com competência, mas também com a ligeira desvantagem de parecer que veio fiscalizá-la.
De Lassie a Homero, os cães parecem condenados a contracenar com atores de duas patas de nível inferior. A crítica chama-lhe química. Nós chamamos-lhe paciência.
Concordo, porém, com a reserva da Sight and Sound sobre a música. Um cão e um homem em silêncio já podem comover-nos. A orquestra não precisa de se levantar para explicar o que estamos a sentir. Sobretudo quando ainda estamos a decidir.
Dou três estrelas. Gostei do vínculo entre os protagonistas e fiquei com reservas sobre a facilidade com que nós, cães, somos promovidos a metáforas. Às vezes estamos simplesmente ali. Também devia contar.
Ah, há outro ator. Acho que é o Brad Pitt.
Tem bons momentos. Não sei se merece tanto entusiasmo, mas trabalhar com animais costuma revelar alguma coisa.
No caso dele, revelou um pastor-alemão.
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Sobre o Ziggy — Um dos sete fundadores da Bone Appétit. Crítico de arte, música e cinema. Dá estrelas com parcimónia e aceita biscoitos sem nenhuma.