Saúde e bem estar

A terapia que ninguém te receitou (mas deviam)

O efeito calmante dos cães na vida humana

E a ciência surpreendente que explica porque é que te sentes melhor só de o ver

Há uma coisa que os donos de cão sabem há milénios e que a ciência demorou a confirmar: existe algo quimicamente alterador na experiência de chegar a casa, abrir a porta, e ser recebido como se tivesses acabado de regressar de uma missão ao espaço.

Essa coisa tem nome. Tem vários, na verdade. E nenhum deles é “ele é muito exagerado” — embora isso também seja verdade.

O que acontece no teu cérebro quando olhas para o teu cão

Em 2015, um estudo publicado na revista Science documentou algo que os donos de cão já suspeitavam, mas que agora tinham em papel: quando um humano e o seu cão se olham nos olhos, ambos registam um pico de oxitocina. A mesma hormona que é libertada entre mãe e bebé durante o aleitamento. A hormona do apego, da confiança, do amor que não precisa de explicação.

Traduzindo para linguagem do dia-a-dia: o teu cão olha para ti, tu olhas para ele, e os dois ficam instantaneamente mais apaixonados um pelo outro. Ao mesmo tempo. Por via química. É simultaneamente o mecanismo mais primitivo e o mais reconfortante que existe.

A investigadora responsável, Miho Nagasawa, da Universidade de Azabu no Japão, ficou tão surpreendida com os resultados que repetiu o estudo. Os números mantiveram-se. A ciência confirmou aquilo que qualquer pessoa sabe instintivamente a partir do momento em que tem um cão: aquele olhar não é indiferente. Está activamente a fazer-te bem.

O cortisol não gosta de cães (e isso é óptimo para ti)

O cortisol é a hormona do stress. É o que o teu corpo produz quando tens uma reunião difícil, quando o trânsito está impossível, ou quando descobres que alguém comeu a tua sobremesa no frigorífico do trabalho.

Estudos realizados na Universidade de Washington demonstraram que apenas 10 a 15 minutos de interacção com um cão — acariciar, brincar, simplesmente estar na mesma divisão — são suficientes para reduzir significativamente os níveis de cortisol no sangue. Não é placebo. É fisiologia.

O efeito é bidireccional, o que torna tudo ainda mais comovente: o cão também produz menos cortisol quando está contigo. Ele também fica mais calmo. Estás a regular-se mutuamente, como dois seres que se encontraram e decidiram, sem qualquer negociação consciente, que a companhia do outro os torna mais inteiros.

A pressão arterial agradece. O cardiologista também.

A American Heart Association publicou em 2013 uma declaração — não um artigo, uma declaração — a associar a posse de animais de estimação a um menor risco cardiovascular. Donos de cão têm, em média, pressão arterial mais baixa, frequência cardíaca mais estável, e recuperam mais rapidamente de episódios de stress agudo.

Para contextualizar: um estudo acompanhou pacientes que tinham sobrevivido a ataques cardíacos. Um ano depois, os que tinham cão tinham uma taxa de sobrevivência significativamente superior. Não foram os medicamentos. Foi o labrador.

Convém dizer que os investigadores admitem que parte do efeito se deve ao exercício físico — donos de cão andam mais, passam mais tempo ao ar livre, têm uma rotina obrigatória que força o movimento. Mas mesmo controlando para esses factores, o efeito protetor mantém-se. Há algo na presença do cão, na relação em si, que é terapêutico independentemente dos passeios.

Ele sabe quando não estás bem. Mesmo quando finges que está tudo óptimo.

Os cães têm um olfacto entre 10.000 e 100.000 vezes mais apurado que o humano. E aqui está o pormenor que ninguém te conta nas conversas de jantar: conseguem detectar alterações nos níveis de cortisol através do cheiro.

Quando estás ansioso, stressado ou em sofrimento emocional, o teu corpo liberta compostos químicos que o teu cão identifica. É por isso que ele se aproxima. É por isso que pousa a cabeça no teu colo sem que tu tenhas dito uma palavra. Não é empatia no sentido humano — é algo mais antigo, mais directo, mais honesto. É um ser que foi co-evoluindo com a espécie humana durante pelo menos 15.000 anos e que aprendeu, ao longo desse tempo, a ler-nos melhor do que nós nos lemos a nós próprios.

Há investigação a sugerir que cães especificamente treinados conseguem detectar crises de ansiedade antes de elas acontecerem — até 20 minutos antes dos primeiros sintomas. Mas mesmo o cão sem qualquer treino especializado, o que dorme no teu sofá e roeu os teus chinelos, tem esta capacidade em forma latente. Usa-a. Todos os dias. Normalmente sem receber os devidos créditos.

Solidão: o problema do século com uma solução com pelo

A Organização Mundial de Saúde classificou a solidão como uma das principais crises de saúde pública do século XXI. Os números são desconfortáveis: a solidão crónica tem efeitos fisiológicos equivalentes a fumar 15 cigarros por dia. Aumenta o risco de demência em 50%, de doenças cardíacas em 29%, de AVC em 32%.

Os cães não resolvem a solidão de forma mágica. Mas criam algo que os investigadores chamam de “presença social constante” — a sensação de não estar fundamentalmente só, mesmo quando não há outra pessoa por perto. Não é substituto das relações humanas, mas é um tampão genuíno, biologicamente real, contra o isolamento.

Acrescenta a isto o facto de os cães criarem pontos de contacto social inevitáveis — no parque, na rua, na clínica veterinária — e tens um argumento sólido para o que qualquer dono de cão já sabe empiricamente: ter um cão muda a forma como te relacionas com o mundo. Abre-te. Literalmente.

Então porque é que ninguém nos disse isto antes?

A verdade é que os donos de cão sempre souberam. A ciência simplesmente demorou a aparecer com os instrumentos certos para medir aquilo que era evidente a olho nu.

Não precisavas de um estudo para saber que o dia fica melhor quando ele está. Não precisavas de dados sobre oxitocina para perceber que aquele olhar tem peso. Não precisavas de nenhuma declaração cardiológica para sentir que o teu coração — o metafórico e o literal — fica mais descansado quando ele está perto.

A ciência chegou atrasada, como sempre. Mas chegou com os números certos.

E os números dizem aquilo que tu já sabias: ele não é só um cão.

É, provavelmente, a melhor decisão de saúde que alguma vez tomaste — e foi a única que não precisou de receita médica, de lista de espera, nem de copagamento.

Precisou só de uma porta aberta e de alguém do outro lado que ficasse genuinamente feliz por te ver.

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