Entrevista

Há cães que trabalham para que outros possam ir mais longe

Entre o Dia Internacional do Cão-Guia, assinalado a 29 de abril, e o Dia do Trabalhador, celebrado a 1 de maio, fomos à procura da Escola de Cães-guia para Cegos, em Mortágua.

Queríamos perceber melhor como se prepara um cão para um dos trabalhos mais discretos, exigentes e importantes que existem: ajudar uma pessoa cega a circular com mais segurança, autonomia e liberdade.

Falámos com a Dra. Filipa Paiva, da Associação Beira Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual, para conhecer melhor o trabalho da Escola, dos educadores, das famílias de acolhimento e das próprias duplas formadas por cão-guia e utilizador. Porque um cão-guia não nasce pronto. Cresce, aprende, é acompanhado, testado, educado e, acima de tudo, preparado para construir uma relação de confiança com alguém que vai depender dele todos os dias.

No Dia do Trabalhador, faz sentido chamar trabalhadores aos cães-guia?

Sem dúvida que sim. O papel que este companheiro desempenha no dia a dia do seu utilizador é muito importante e pode ser considerado um trabalho, sem a carga negativa que por vezes se associa à palavra. O cão-guia está em trabalho quando se desloca com o seu utilizador. Quando chegam ao local pretendido, ele “despe” a farda e fica em repouso, aguardando uma nova deslocação. Em casa, este amigo é tratado como um membro da família. Tem o seu espaço, é bem alimentado, tem direito a mimos, brincadeira e até conversas que, muitas vezes, o utilizador não tem com mais ninguém.

Quando começa a preparação de um cão-guia?

Este trabalho começa, sempre que possível, ainda nos pais e nos avós, com uma reprodução cuidada e assistida. Logo na ninhada, os cachorros são acompanhados e manuseados pelos pré-educadores, para se habituarem ao contacto humano e a diferentes situações. Depois, na família de acolhimento, aprendem regras de boa educação e começam a comportar-se bem em espaços públicos e em sociedade. A fase de educação pode começar ainda antes dos 12 meses, embora o tempo varie de cão para cão e também da disponibilidade dos educadores.

Porque vemos tantos Labradores como cães-guia?

O Labrador é, a nível mundial, a raça de eleição para este trabalho. E, com os poucos recursos existentes, a Escola segue a opção que oferece maior garantia de sucesso. É um cão robusto, de porte médio, bom para dar equilíbrio ao utilizador, mas não demasiado grande para se acomodar em transportes e espaços públicos. Tem boa capacidade de aprendizagem, gosto pelo trabalho e uma relação muito positiva com o ser humano. Outro ponto importante é que o Labrador, em regra, lida bem com mudanças de ambiente e de pessoas. Desde que receba atenção e acompanhamento, adapta-se bem às várias fases do processo.

O que distingue um cão-guia de um cão muito bem treinado?

O treino. Cada treino tem a sua especificidade. Há cães de busca e salvamento, cães de guarda e proteção, cães de pastoreio, cães de suporte emocional, cães de intervenção e muitos outros. O cão-guia faz parte dos cães de assistência. A grande diferença é que o cão-guia desempenha uma função muito específica: ajuda a “substituir” os olhos de quem não vê. Por isso, tem de ser educado com grande responsabilidade, muita sistematização de regras e maturidade comportamental. São necessários cerca de dois anos, desde a ninhada até ao momento da entrega ao utilizador, para que um cão possa ser considerado apto para esta função.

Qual é o papel da família de acolhimento?

É fundamental.
As famílias de acolhimento fazem formação teórica na Escola antes de receberem o cachorro. Quando o cachorro chega, há também uma formação prática feita pelas pré-educadoras. A família fica responsável pela socialização do cão. Não tem custos com alimentação nem cuidados veterinários. A sua missão é implementar regras e mostrar o mundo ao cachorro. Transportes públicos, centros comerciais, restaurantes, locais de trabalho, crianças, idosos, ambientes calmos e ambientes mais movimentados. Quanto mais experiências positivas o cão tiver, melhor preparado estará para o futuro.

O que é mais difícil: ensinar a obedecer ou ensinar a não obedecer?

Como a Escola trabalha com reforço positivo e os cães gostam de trabalhar, o mais difícil é ensinar a desobedecer a uma ordem quando há perigo. Um exemplo claro é a travessia de passadeiras. Com o aumento dos carros elétricos, pode ser mais difícil para uma pessoa cega perceber o momento certo para atravessar. Se o utilizador der ordem para avançar, mas o cão perceber que não há condições de segurança, deve recusar a ordem. O cão sabe algo que a pessoa não sabe naquele momento: não é seguro atravessar.
Esta desobediência inteligente é uma das coisas mais difíceis de ensinar e exige maturidade por parte do cão. É também um dos sinais que ajudam a perceber se está realmente pronto.

Como se escolhe o cão certo para a pessoa certa?

Quando um educador tem um cão pronto para ser entregue e conhece bem o seu perfil, a Escola analisa os candidatos que já foram entrevistados. Os pedidos de substituição têm prioridade em relação às candidaturas a primeiro cão, mas o mais importante é compatibilizar características. Um cão com andamento mais rápido terá de ser entregue a uma pessoa com andamento mais rápido. Também se avalia se a pessoa quer um cão mais apegado ou mais independente, se vive numa cidade ou numa vila, se usa transportes públicos ou anda sobretudo a pé, se prefere um cão mais energético ou mais calmo. Entram ainda em conta o estilo de vida, a idade, a profissão, o grau de confiança da pessoa e os seus objetivos. Mesmo com todo este cuidado, há sempre risco. Afinal, trabalham-se dois seres vivos. Quando uma dupla não se adapta, o cão regressa à Escola, é selecionada outra pessoa para ele e o candidato aguarda por um cão mais adequado ao seu perfil.

O treino acaba quando o cão sai da Escola?

Não. A entrega ao utilizador é apenas o começo da aventura. Um cão-guia, quando é entregue, tem cerca de dois anos de trabalho, mas continua sempre a aprender. A Escola dá as ferramentas necessárias para que cão e utilizador se tornem uma boa dupla, mas o trabalho continua depois de o educador ir embora. Com novas experiências, novos percursos e novas dificuldades, a confiança cresce. A pergunta não é “e se o cão errar?”, porque isso vai acontecer. Também é assim que se aprende. Com o tempo, a dupla ganha cumplicidade e pode chegar a trabalhar quase em “piloto automático”.

Uma pessoa cega pode precisar de mais do que um cão-guia ao longo da vida. Como se vive essa transição?

É um momento difícil.
O cão-guia é mais um elemento da família. A sua perda ou reforma traz um processo de luto, com todo o peso associado.
Para muitos utilizadores, o cão trouxe segurança, rapidez nas deslocações, autonomia e até maior integração social. A sua ausência pode ser sentida como “ficar cego uma segunda vez”. Quem precisa de substituir um cão-guia tem prioridade em relação a quem aguarda pelo primeiro cão, sempre tendo em conta o perfil do cão disponível. Mas a nova dupla tem de começar do zero. O cão anterior já conhecia rotinas, percursos, hábitos e sinais. Com o novo companheiro, tudo volta a ser novidade. O utilizador já sabe o que é viver com um cão-guia. Mas o novo cão-guia ainda não sabe quem é aquele ser humano com quem vai passar a partilhar todos os momentos.

Que mensagem gostava de deixar a quem vive com cães menos trabalhadores, mas igualmente importantes?

Todos são importantes.
A transformação positiva que um cão pode trazer à vida de uma pessoa, de uma família ou de um grupo mostra a importância que ele tem, seja cão de assistência, de suporte ou de companhia. O essencial é que sejam todos estimados e respeitados.

O que nunca devemos fazer quando vemos um cão-guia a trabalhar?

A mensagem da Escola é clara:
Não se deve distrair o cão. Não o chamar, não lhe dar ordens, não fazer ruídos nem tentar chamar a sua atenção, porque isso pode desconcentrá-lo e causar um acidente. Se for preciso dar alguma indicação, deve falar-se com o utilizador, nunca com o cão.
Também não se deve tocar no arnês. O arnês é o elo de ligação entre o cão e o utilizador. Mexer-lhe pode desorientar a dupla.
Quem quiser falar ou ajudar deve aproximar-se pelo lado direito do utilizador, porque o cão trabalha sempre do lado esquerdo.
É importante lembrar que os cães-guia têm direito de acesso, por lei, a todos os locais, transportes e estabelecimentos de acesso público. E quem estiver com outro cão na rua deve afastá-lo para evitar distrações ou conflitos. Também nunca se deve dar comida a um cão-guia. Ele tem horários próprios para comer e o utilizador sabe quando o deve fazer. Respeitar o trabalho de um cão-guia é um ato de cidadania.

E a pergunta que muita gente pensa, mas nem sempre faz: como funciona a rotina das necessidades?

O cão-guia tem horas certas para comer e para fazer as necessidades. Essa rotina é implementada desde pequeno, continua na família de acolhimento e depois é adaptada ao dia a dia do utilizador. Durante o estágio de entrega do cão-guia, o utilizador aprende a técnica para conseguir apanhar os dejetos do cão e alguns truques para perceber se o cão fez ou não as suas necessidades. Como diz a Escola, se os utilizadores fazem esse esforço, toda a gente devia fazer também.

Como podemos ajudar a Escola?

A forma mais simples é começar por seguir e divulgar o trabalho da Escola.

Instagram: caesguia.mortagua
Facebook: Escola de Cães-guia para Cegos
LinkedIn: Associação Beira Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual
Website: www.caesguia.org

Também é possível tornar-se associado, patrocinar atividades da associação, apadrinhar ou ser amigo de um cão-guia, contribuindo para a sua educação.

E há ainda uma forma muito concreta de ajudar: consignar 1% do IRS à ABAADV — Escola de Cães-guia para Cegos, através do NIF 513396322.

Porque há cães que trabalham todos os dias para que outras pessoas possam ir mais longe. E há uma Escola inteira a trabalhar para que isso aconteça.

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