Opinião

SONHO OU PESADELO? EIS A QUESTÃO.

Há uma injustiça profunda na relação entre humanos e cães: eles dormem com uma convicção que nós já não temos. Um cão adormece como quem entrega a alma àquilo que realmente importa. Não faz scroll, não revê conversas de 2017, não pensa se respondeu de forma demasiado seca a um email. Encosta-se, suspira uma última vez, dá duas voltas sobre si mesmo como um idoso a ajeitar o cobertor, e mergulha naquele sono denso, absoluto, de quem não deixou a loiça por arrumar porque, convenhamos, nunca foi essa a sua luta.

E depois começa o mistério. A pata mexe. O focinho estremece. Há um pequeno ganido. Às vezes uma corrida imaginária em câmara lenta, como se dentro daquele corpo estendido no sofá estivesse a decorrer uma perseguição de grande intensidade dramática. O humano observa e pergunta-se: com que sonham eles? E a resposta evidente — coelhos, bolas, carteiros — parece curta. Insuficiente. Redutora, até. Um animal que passa doze a quinze horas por dia a cultivar estados alterados de descanso há-de ter uma vida onírica mais rica do que nós suspeitamos.

Nós desconfiamos que os cães sonham sobretudo com versões melhoradas da vida real. Não com fantasias impossíveis, como os humanos, que sonham que voam, que aparecem nus numa reunião ou que ainda falta um exame final de uma disciplina que fizeram em 2004. O cão parece-me demasiado sensato para isso. O cão sonha com a mesma sala, o mesmo jardim, o mesmo passeio de sempre — mas com regras revistas a seu favor. No sonho canino, a porta da rua abre-se sozinha. Os pombos são mais lentos. As bolas nunca se perdem debaixo do sofá. E o dono, finalmente educado, percebe ao primeiro pedido aquilo que durante o dia insiste em sabotar: que o jantar devia ser servido um pouco mais cedo e em quantidades menos ofensivas.

Também nos parece provável que muitos cães sonhem com uma inversão completa da hierarquia doméstica. Durante o dia, aceitam que o humano mande, ou finjam aceitar, que é uma forma superior de inteligência social. Mas à noite, no território livre do subconsciente, talvez as coisas se reorganizem como devem ser. O cão dá instruções. O humano corre atrás da bola. O humano senta, fica, dá a pata, rebola se for preciso. O humano é elogiado em tom caloroso por finalmente ter conseguido fazer xixi no sítio correcto. E o cão, sentado numa poltrona imaginária de cabedal, observa tudo com aquela expressão antiga de quem sempre soube que isto era apenas uma questão de tempo.

Há ainda os sonhos de abundância. Não acreditamos que um cão sonhe apenas com comida; isso seria quase grosseiro, um estereótipo. Mas acredito que sonhe com a experiência moral de um mundo onde tudo é potencialmente comestível e ninguém julga. Um universo em que uma meia deixada no chão não é “tira isso da boca”, mas sim “interessante escolha, senhor doutor”. Um universo em que o conteúdo do caixote do lixo é apresentado em travessas, com harmonização, talvez por ordem crescente de maturação. Um universo em que o frango assado repousa ao alcance do focinho, desacompanhado de censura humana e daquela palavra odiosa: “não”.

Já os cães mais atléticos, aqueles animais atravessados por uma electricidade interna que nem o sono consegue pacificar completamente, talvez tenham sonhos de epopeia. Sonham que estão a reunir rebanhos invisíveis em pradarias imensas, a resgatar famílias inteiras de ameaças vagas, a correr por campos sem trela e sem fim, impulsionados por uma banda sonora que só eles ouvem. Todo o border collie adormecido tem qualquer coisa de general em campanha. Mexe-se com propósito. Franze o sobrolho. Late baixinho para um inimigo abstracto. Claramente está a resolver situações. Não dorme: gere operações.

Em contrapartida, suspeitamos que os cães mais pachorrentos tenham uma vida onírica menos narrativa e mais filosófica. O bulldog inglês, por exemplo, não me parece dado a sonhos de acção. Parece-me mais o tipo de criatura que sonha com conceitos. Com temperatura ideal. Com almofadas infinitas. Com uma espécie de planície metafísica feita só de sombra fresca e superfícies macias, onde o tempo não existe e ninguém sugere “vamos só dar uma volta rápida”. O basset hound talvez sonhe com o prolongamento indefinido de uma sesta já em curso. O pug, esse, provavelmente sonha que está a dormir melhor do que está a dormir, o que é uma proeza espiritual que nós, humanos, dificilmente alcançaremos.

E depois há aquela hipótese inquietante: e se os cães sonham connosco? Não de forma simbólica, como nós sonhamos com a infância ou com o fracasso, mas literalmente connosco. Com a nossa chegada a casa, com a nossa voz, com o som das chaves à porta, com aquele momento em que largamos tudo e passamos a mão pelo pêlo deles como se o dia, por um instante, deixasse de ser tão complicado. É possível que, no meio de coelhos oníricos e banquetes impossíveis, também haja lugar para isto: o humano preferido a aparecer outra vez, sempre outra vez, nessa versão simplificada e perfeita da vida em que nunca saímos por muito tempo e voltamos sempre à hora certa.

Talvez seja essa a razão pela qual um cão adormecido, no meio de uma convulsão ligeira de patas e suspiros, de repente acalma. Como se tivesse encontrado, lá dentro, qualquer coisa boa. Um jardim sem fim, uma bola desobediente, um carteiro amedrontado, ou simplesmente nós sentados ao lado dele num mundo onde ninguém tem pressa. Enquanto isso, o humano observa, enternecido, e pensa que o animal está só a dormir, quando na verdade talvez esteja a visitar um lugar muito menos ansioso do que a nossa vigília.

No fundo, o cão dorme como vive: sem cinismo. E talvez seja isso que mais nos desconcerta. Nós passamos a vida a desconfiar da felicidade, a questionar os sinais, a projectar desastres futuros. O cão não. Sonha, ao que tudo indica, com aquilo que ama, com aquilo que persegue e com aquilo que gostaria que acontecesse mais vezes. Faz da noite uma continuação generosa do dia. E mesmo quando se debate, ganindo atrás de um gato imaginário, há ali uma pureza de intenção que nos humilha um pouco.

Os cães talvez sonhem com bolas, bifes e corridas. Mas nós gostamos de pensar que sonham, acima de tudo, com um mundo onde a pessoa certa está sempre em casa. Ou que está quase a chegar. Que é mais ou menos o sonho de qualquer ser vivo civilizado.

Já agora, por que não oferecer uma cama nova ao seu cão, ele merece!

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