Opinião

Em nome do cão

Em nome do cão

Os nomes são das maiores invenções humanas — e das mais perigosas. Basta olhar para os nossos Albinos, Alindas e Maria Joaquinas para perceber que um nome pode ser amor, teimosia ou simples fadiga burocrática. E os apelidos? Acidentes poéticos: Tomás Ferro das Águas, Jorge Aguiar Noite, Helena Gato das Lebres. Não são nomes — são histórias.

O estranho é isto: nós herdamos estes acidentes alfabéticos… e os cães não. O país aceita combinações que fariam suar um genealogista, mas continua a fingir que um cão — que segura metade da nossa vida emocional — não merece um nome completo.

É absurdo.

 E é injusto.

 Sobretudo porque eles são família. Família mesmo.

Se nós carregamos os nossos acidentes, eles também deviam. Não faz sentido que exista um Tomás Ferro das Águas e não possa existir um Lucho Sousa, uma Pepper Serrão, uma Roma Rodrigues ou um Rio Rodrigues.

E ainda por cima ficam-lhes melhor: Koala Alvorão tem peso literário, Pepper Serrão parece editor raro, Roma e Rio Rodrigues nascem com dignidade.

Se somos família, então que se veja.

 Se somos família, então que se assine.

 E o nome — essa coisa que nunca escolhemos — devia ser um direito partilhado, não um privilégio.

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