Cultura

Raças Nacionais – Uma seleção que nos enche de orgulho

Antes do golden retriever reinar nos jardins de Cascais, havia outros a guardar serras, pescar no Atlântico e farejar perdizes no Alentejo. Estes são os cães que são tão portugueses como o Galo de Barcelos mas e infinitamente mais atléticos e inteligentes.

Existe uma certa ironia na forma como Portugal, um país que exportou cultura para o mundo inteiro, nunca fez grande marketing das suas próprias raças caninas. Enquanto o Labrador, o Husky e o Border Collie conquistaram feeds de Instagram de Trás-os-Montes ao Algarve os nossos cães autóctones continuam a ser, para muitos, um segredo bem guardado — às vezes literal e geograficamente guardado, algures numa serra ou numa ilha dos Açores.

Temos nove raças reconhecidas pela Fédération Cynologique Internationale, e mais duas à espera de certificação, cada uma forjada durante séculos por uma função específica, um clima específico e, muitas vezes, por uma dureza de vida que hoje seria impensável exigir a qualquer criatura com cama própria e snacks de fígado desidratado. São cães com currículo. Com história. Com um carácter que não foi desenhado num escritório — foi temperado no campo.

Cão de Água Português

O marinheiro com melhores abdominais que o Michael Phelps

Se houvesse uma raça portuguesa feita para a era do Instagram, era esta. Pelagem ondulada ou encaracolada, porte atlético, olhos expressivos que sugerem uma inteligência ligeiramente preocupante — o Cão de Água Português foi durante séculos o parceiro de trabalho indispensável dos pescadores do Algarve. Nadava entre barcos para recuperar redes, levava mensagens de embarcação em embarcação, e chamava à atenção do capitão quando havia peixe. Em suma: era o assistente executivo do mar, mas sem precisar de email.

Do ponto de vista biológico, trata-se de uma raça de energia considerável — com necessidades de exercício que humanos sedentários podem achar pessoalmente ofensivas. O seu pelo não cai como o de outras raças (a estrutura das fibras capilares é mais próxima do cabelo humano do que da pelagem típica canina), o que o torna uma opção frequentemente escolhida por tutores com alergias ligeiras — embora a ideia de “raça hipoalérgica” seja, convém dizê-lo, um mito a combater.

Cão da Serra da Estrela

Guardião das altitudes, inimigo declarado dos lobos

Quem alguma vez subiu à Serra da Estrela no inverno sabe o que é o frio a sério. O Cão da Serra da Estrela foi moldado por esse frio durante centenas de anos, como cão de guarda dos rebanhos contra os lobos que desciam das montanhas. O resultado é um animal de porte imponente — pode atingir os 60 kg nas linhas mais pesadas — com uma independência de carácter que os eufemismos cinológicos descrevem como “altivez”.

Existe em duas variedades: pelo comprido e pelo curto. É um cão territorial, de lealdade profunda à sua família humana e de reserva marcada face a estranhos. A socialização precoce não é uma sugestão: é uma necessidade. Alimentá-lo adequadamente é também um exercício logístico diferente — estamos a falar de um animal com metabolismo de trabalho, que beneficia significativamente de uma dieta equilibrada e de qualidade quando vive no contexto doméstico atual.

Cão de Castro Laboreiro

Da aldeia transmontana longíqua para o reconhecimento que merece

Castro Laboreiro é uma aldeia no extremo norte de Portugal, encravada num planalto a mais de mil metros de altitude, com invernos que tornam as reclamações sobre o frio urbano completamente ridículas. O cão que leva o seu nome foi criado ali, para guardar o gado nesse ambiente extremo, com uma característica vocal famosa entre os entendidos: o seu latido tem dois registos distintos — um de alerta e um de ataque — que se diz serem audíveis a distâncias notáveis na névoa da serra. É, em linguagem moderna, um sistema de alerta com notificações sonoras personalizadas. Raça pouco numerosa fora do seu terreno de origem, merece mais atenção do que recebe. O seu temperamento é equilibrado para quem o conhece, desconfiado e vigilante face ao desconhecido — um perfil psicológico que qualquer porteiro de discoteca experiente, reconheceria como muito profissional.

Rafeiro do Alentejo

Tamanho XL. Pachorra L. Fidelidade infinita.

Se o Cão da Serra da Estrela é o guardião das montanhas, o Rafeiro do Alentejo é o seu equivalente das planícies. Ainda maior. Mais pesado. Com uma expressão que sugere ter visto muitas gerações de humanos tomarem decisões questionáveis e ter aprendido, há muito, a não se surpreender.

É uma raça de guarda noturna por excelência — o seu ritmo de atividade está historicamente calibrado para os turnos do sol. Pode atingir os 60 kg com facilidade. Não é, tecnicamente, um cão para um apartamento T1 em Lisboa, embora a internet seja plena de exemplos que sugerem o contrário e que os donos qualificam sempre como “ele é muito calmo”. A nutrição deste cão — dado o seu tamanho — merece atenção específica, especialmente em relação ao cálcio, fósforo e às gorduras de qualidade que suportam a saúde das articulações.

Cão de Gado Transmontano

O maior de todos, e o que o lobo mais teme.

É a maior raça portuguesa — os machos podem atingir os 85 cm de altura ao garrote e os 75 kg de peso — e foi moldada durante séculos pelas condições específicas de Trás-os-Montes: terreno acidentado, clima extremo, e uma ameaça constante que nunca foi metafórica. O lobo ibérico existe ali de verdade, e este cão existe, em grande parte, por causa dele.

A sua história partilha raízes com os grandes mastins ibéricos e está diretamente ligada às rotas de transumância da Península. Mais de 95% dos exemplares existentes trabalham ainda ativamente como cães de guarda de rebanhos na região de origem. O seu temperamento combina calma na ausência de ameaça com energia e decisão quando ela surge — e tem uma memória longa para quem o trate mal. Em 2020, a FCI concedeu-lhe reconhecimento provisório. Enquanto Portugal tratava da papelada, o Oregon Department of Fish and Wildlife já o estava a testar como solução para ataques de lobo no oeste dos Estados Unidos. Às vezes, o mundo descobre o que temos antes de nós próprios.

Cão da Serra de Aires

O pastor que parece um esfregão pensante.

Também conhecido como “cão macaco” — alcunha dada pela expressão particular do focinho — o Cão da Serra de Aires é um pastor português inteligente, ágil e com uma energia que envergonharia a maioria dos humanos antes do segundo café. É o cão de trabalho das planícies do Alentejo e Ribatejo, responsável por conduzir gado em terrenos abertos, o que exige uma capacidade de iniciativa e resolução de problemas que os cinólogos classificam como inteligência de trabalho elevada.

Em termos de comportamento doméstico, é um cão que precisa de ocupação mental tanto quanto de exercício físico. Um Cão da Serra de Aires entediado é um problema criativo, que se manifestará muito provavelmente sob a forma de almofadas rasgadas e meias desaparecidas. Algo que o dono não pediu, mas que que vai ter de resolver de qualquer forma.

Perdigueiro Português

O aristocrata do campo.

Raça de caça com um perfil físico elegante — pescoço arqueado, movimentos fluidos, expressão de quem leu toda a literatura cinegética disponível — o Perdigueiro Português é um cão de busca e levantamento com séculos de história na caça à perdiz no Sul do país. É uma das raças autóctones com maior reconhecimento internacional, tendo ganho admiradores na Europa pela sua docilidade fora do campo e pela sua concentração e faro dentro dele.

É um cão caloroso com a família, sem os laivos de independência dos guardiões de rebanho. A sua fisiologia de cão atlético médio torna-o um candidato ideal a uma alimentação que priorize proteína de qualidade e gorduras funcionais.

Podengo Português

Dois tipos de pelo, três tamanhos, uma atitude.

O Podengo Português é, a todos os efeitos, uma família dentro de uma raça. Existe em três tamanhos — grande, médio e pequeno — e em duas variedades de pelo — liso e cerdoso — o que produz seis combinações distintas, cada uma com as suas particularidades. É uma das raças mais antigas da Península Ibérica, com representações que alguns investigadores fazem remontar às representações de cães no Egito Antigo, via contactos comerciais fenícios e romanos. Isto é ou impressionante ou muito difícil de verificar — provavelmente ambos.

O Podengo é um cão primitivo no sentido técnico do termo: pertence ao Grupo 5 da FCI, com características como orelhas eretas, silhueta fina e instinto de caça marcado. O Podengo pequeno tornou-se uma raça de companhia popular em Portugal e além-fronteiras. Come pouco para o seu nível de energia, o que não significa que a qualidade do que come seja irrelevante — bem pelo contrário.

Barbado da Terceira

O açoriano que também conta.

Originário da ilha Terceira nos Açores, o Barbado é um cão de gado de porte médio, com pelagem ondulada e uma expressão que a barba facial, característica da raça, torna inconfundivelmente peculiar. Foi utilizado durante gerações para conduzir o gado bovino nos pastos açorianos, com uma coragem face ao tamanho das reses que excede consideravelmente o que o seu porte sugeriria.

É talvez a raça portuguesa menos conhecida no continente, o que é uma injustiça geográfica. A sua personalidade combina energia de trabalho com uma docilidade familiar que o torna um companheiro equilibrado — desde que o espaço e o exercício estejam garantidos.

Cão de Fila de São Miguel

Força das ilhas

Também dos Açores, especificamente de São Miguel, o Cão de Fila é uma raça de guarda e manejo de gado de grande porte e presença física considerável. Reconhecido pelo Clube Português de Canicultura, aguarda ainda reconhecimento formal pela FCI como raça independente. É um cão de carácter marcado, confiante e territorial — não é uma raça para principiantes, mas para tutores experientes que compreendam a natureza de um animal forjado para proteger e para trabalhar.

A nota final

Porque isto não é apenas história

Portugal tem um património cinológico extraordinário e, com raras exceções, sub-representado. Estas raças sobreviveram séculos de trabalho duro com uma resiliência que impressiona, mas muitas enfrentam hoje o desafio oposto: a escassez de criadores, o desinteresse do mercado e a concorrência de raças internacionais amplamente promovidas.

Conhecê-las é o primeiro passo. Escolhê-las, quando se procura um cão, pode ser o segundo. E cuidar delas — com a alimentação, o exercício e a atenção que cada uma, com o seu carácter específico, merece — é um ato de respeito para com uma história que é também a nossa.

O cão é também família. E neste caso, uma família com séculos de história.

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