Saúde e bem estar

Não partilhes o jantar. O teu cão agradece.

Há um momento que toda a gente que tem cão conhece. Estás a comer. O teu cão está ao lado. Os olhos dele fazem coisas que os olhos não deviam conseguir fazer — ficam maiores, mais brilhantes, ligeiramente humedecidos no canto. E tu, claro, partes um bocadinho e ofereces.

É um gesto de amor. Também pode ser, sem que o saibas, um gesto de intoxicação.

Não queremos alarmar ninguém. A maior parte das emergências veterinárias por ingestão de alimentos tóxicos não acontece porque o tutor quis fazer mal ao cão — acontece porque simplesmente não sabia. E é para isso que estamos aqui.

A maioria das intoxicações não acontece porque o tutor quis fazer mal ao cão. Acontece porque simplesmente não sabia.

Reunimos os dez alimentos que mais frequentemente chegam às urgências veterinárias por ingestão acidental — e que têm em comum o facto de parecerem completamente inofensivos. Nenhum deles é veneno de rato. Nenhum é substância química industrial. São coisas que provavelmente tens agora mesmo na cozinha.

Os suspeitos do costume

1. Uvas e passas — o mistério científico mais perigoso.

Começamos com aquele que os veterinários consideram o mais traiçoeiro de todos, e por uma razão inquietante: a ciência ainda não sabe exactamente porquê é que as uvas são tóxicas para cães. A toxina responsável não foi identificada. O que se sabe, com base em estudos clínicos e registos do ASPCA Animal Poison Control Center, é que podem causar insuficiência renal aguda — e que cães diferentes reagem de formas completamente diferentes à mesma dose. Um cão comeu um cacho inteiro e ficou bem. Outro comeu três passas e entrou em falência renal.

  Regra prática: dose segura = zero. Não há quantidade conhecida que seja inofensiva.

2. Cebola, alho e a família allium — o perigo que vai ao lume.

O alho e a cebola contêm compostos organossulfurados que, no sistema digestivo dos cães, oxidam os glóbulos vermelhos e causam anemia hemolítica. O alho é aproximadamente cinco vezes mais concentrado que a cebola — e nenhuma forma de cozimento elimina a toxina. Cru, cozido, em pó, desidratado: o efeito mantém-se.

O que torna este caso particularmente insidioso é a acumulação: pequenas doses repetidas ao longo de dias têm o mesmo impacto que uma dose grande de uma vez. Aquele bocadinho de sopa com cebola que sobrou? O caldo que lhes deste na semana passada? Somam-se.

3. Xilitol — Lê as etiquetas antes de seres querido.

O xilitol é um adoçante de origem natural usado em dezenas de produtos “saudáveis”: pastilhas elásticas sem açúcar, rebuçados, alguns cremes de dentes e, o que mais nos preocupa, algumas marcas de manteiga de amendoim. Sim, a manteiga de amendoim que metade dos tutores usa como recompensa de treino.

Num cão, o xilitol provoca uma libertação massiva e imediata de insulina — hipoglicémia grave que pode progredir para insuficiência hepática. A dose de risco é baixíssima: 0,1 g por kg de peso corporal. Para um Labrador de 30 kg, isso é menos de um pacote de pastilhas.

💡  Sempre que compras manteiga de amendoim para o teu cão, confirma que “xylitol” não aparece na lista de ingredientes.

Os que toda a gente conhece (mas subestima)

4. Chocolate — não é mito, é bioquímica.

Toda a gente sabe que o chocolate faz mal aos cães. Nem toda a gente sabe porquê, e essa é a diferença entre agir depressa e esperar para ver.

O chocolate contém teobromina e cafeína, dois estimulantes que os cães metabolizam muito mais lentamente que os humanos — a semi-vida da teobromina num cão é de 17 a 18 horas, contra 2 a 3 horas num humano. O resultado é uma acumulação tóxica que causa vómito, diarreia, taquicardia, tremores e, em doses elevadas, convulsões. O chocolate negro e o cacau em pó são os mais concentrados; o chocolate de leite tem doses menores mas continua a ser tóxico.

“Mas comeu chocolate e não lhe aconteceu nada.” Pode ter acontecido algo que não viste, pode ter tido sorte, pode ter sido uma dose abaixo do limiar de sintomas visíveis. Não é um argumento que recomendamos repetir.

5. Abacate — a gordura boa que não é boa para eles

A persina é uma substância fúngica presente na polpa, casca, caroço e folhas do abacate. No cão, causa vómito, diarreia e, em casos mais graves, acumulação de fluido no peito que compromete a respiração. A polpa tem menor concentração do que o caroço, que representa também um risco físico de obstrução intestinal se ingerido inteiro.

Os que nunca imaginarias

6. Nozes de macadâmia — o mistério número dois.

Tal como as uvas, a macadâmia tem uma toxina ainda por identificar. Os sintomas são diferentes — fraqueza nas patas traseiras, hipotermia, tremores, vómito — e aparecem entre 12 a 24 horas após a ingestão. Geralmente resolvem-se em 48 horas sem tratamento, mas a palavra “geralmente” não é um seguro de vida veterinário.

O perigo prático: a macadâmia aparece frequentemente em bolachas e sobremesas. Ninguém lê a lista de ingredientes das bolachas antes de dar um bocadinho ao cão.

7. Caroços de fruta — Não comes e não o deixes comer.

A fruta em si — pêssego, ameixa, cereja, nectarina — é geralmente inofensiva para os cães em pequenas quantidades. O caroço não. Contém amigdalina, um glicósido que o organismo converte em cianeto de hidrogénio quando mastigado ou partido. O mesmo princípio aplica-se às sementes de maçã.

Além da toxicidade química, os caroços representam risco de obstrução intestinal ou perfuração — uma emergência cirúrgica.

8. Noz-moscada — Uma especiaria a evitar. Por eles, claro.

A miristicina, o principal composto activo da noz-moscada, é um alucinogénio e neurotóxico. Em humanos, diz-se que em doses muito altas produz efeitos psicotrópicos (há quem tenha tentado; os relatos não são entusiastas). Em cães, doses muito mais pequenas causam desorientação, convulsões e taquicardia.

O problema não é o frasco no armário — é que a noz-moscada aparece em receitas quotidianas e que podemos partilhar inadvertidamente com os nossos cães.

9. Cafeína — Nunca. Nem lamber.

A cafeína actua nos cães da mesma forma que nos humanos, mas com uma potência muito superior relativa ao peso corporal. Estimula o sistema nervoso central e o sistema cardiovascular de forma que os cães simplesmente não têm capacidade de processar. Não há antídoto específico — o tratamento é sintomático.

Inclui: café, chá verde e preto, bebidas energéticas e alguns medicamentos de venda livre que contêm cafeína como princípio activo.

10. Massa crua com levedura — o perigo que cresce dentro deles.

A mais inesperada de todas, e a mais fascinante do ponto de vista bioquímico. O pão cozido é inofensivo. A massa crua não: a levedura activa continua a fermentar no estômago do cão, num ambiente quente e húmido que é, para a levedura, literalmente ideal. O processo produz etanol (álcool) e dióxido de carbono em simultâneo. O estômago dilata. O cão intoxica-se como se tivesse bebido uma quantidade considerável de álcool num espaço muito curto de tempo. Em casos graves, a dilatação gástrica pode ser fatal sem intervenção cirúrgica de urgência.

O que fazer se o teu cão ingerir algum destes alimentos

Primeiro: não entres em pânico. Entrar em pânico não ajuda o cão e impede-te de agir com clareza.

Segundo: liga para o teu veterinário ou para uma linha de urgência veterinária imediatamente. Não esperas para “ver se aparecem sintomas” — em muitas intoxicações, os sintomas só aparecem quando o dano já está feito.

Terceiro: tenta saber (e comunicar ao veterinário) o quê, quanto e quando. Essas três informações aceleram o diagnóstico e o tratamento de forma significativa.

Não esperes para ver se aparecem sintomas. Em muitas intoxicações, os sintomas só aparecem quando o dano já está feito.

Em Portugal, a Linha Verde Veterinária e as urgências dos centros hospitalares veterinários das principais cidades têm capacidade para tratar intoxicações. O ASPCA Animal Poison Control Center (disponível 24h) é também um recurso valioso se não conseguires contacto imediato.

Coisas boas, para terminar

A lista é longa e pode parecer assustadora. Não é essa a intenção. A intenção é que o teu cão viva muito tempo, em muito boa saúde, ao teu lado — e que isso aconteça com informação, não com sorte.

Partilhar é um acto de amor. Só precisa de ser feito com os alimentos certos. E para isso, bem, temos algumas sugestões.

🐾  Na Bone Appétit encontras receitas desenvolvidas especificamente para cães, sem ingredientes tóxicos, supervisionadas por veterinários e com listas de ingredientes que consegues ler sem dicionário.

Subscreve a nossa Newsletter

Recebe as últimas novidades, dicas e artigos diretamente no teu email. Sem spam, prometemos!

Obrigado por subscrever! Verifique o seu email para confirmar.
Ocorreu um erro. Por favor, tente novamente.

Partilhar

Seleccione um ponto de entrega

Bone Appétit
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.