Entrevista

Entre cães, música e amor: uma conversa com André Navarro

André Navarro é designer, curador musical e um dos fundadores do Bone Appétit.
Construiu, em paralelo, uma comunidade com mais de 100 mil seguidores no YouTube, onde a lógica nunca foi aparecer — foi escolher, organizar e preservar. Um gesto mais próximo de arquivo do que de palco.

Bolota & Dexter

Em todas as entrevistas do Bone Appétit dizemos sempre a mesma coisa: foram eles, os nossos cães, que nos trouxeram aqui. No teu caso, nem foi preciso lembrar. Foram mesmo a Bolota e o Dexter que te puxaram para este projecto. Dá para dizer, sem romantizar, que foi o amor incondicional pelos cães que nos trouxe até aqui.

Queres apresentar-nos a Bolota e o Dexter?

A Bolota é uma rafeira arraçada de podengo português e tem 10 anos de pura energia farejadora. É super activa, gulosa e curiosa. O Dexter é também um rafeiro, tem 4/5 anos, é arraçado de pastor alemão e é o cão mais zen do mundo. Tanto, que o seu nome de baptismo era Yogi, tal é a tranquilidade que o caracteriza. É enorme, mas bastante tímido. No fundo, é um bom gigante.

Foste tu que lhes deste os nomes?

A Bolota foi baptizada pela Inês, minha mulher, e o Dexter teve vários nomes até se chegar a um consenso. De origem era Yogi, depois foi Paco, Sven e finalmente Dexter. Foi também a Inês a dar-lhe o nome definitivo.

Eles usam o apelido da família?

Claro! O casal Dexter e Bolota Navarro, são considerados membros de pleno direito da família.

O que se aprende com eles

O que é que aprendeste com a Bolota e o Dexter que não aprendeste em mais lado nenhum?

Já tivemos muitos cães e todos nos ensinaram coisas diferentes. E com estes dois também assim aconteceu. Com a Bolota aprendemos que podemos ser extremamente felizes com coisas extremamente pequenas. Palavras de poucas letras (rua, osso…), um pequeno sorriso, um pauzinho para roer, enroscar-se no canto de um sofá… no fundo aprender a dar valor às coisas simples e descomplicadas da vida.

Com o Dexter aprendemos que, manter a calma e a serenidade, mesmo nas situações mais tensas, é sempre a melhor opção. O Dexter tem o dom de conseguir contrariar toda a impulsividade que possa existir à sua volta com um simples abanar de cauda. Nunca reage a nada de forma agressiva e transmite paz a todos os ambientes em que se encontra.

Há alguma coisa que hoje fazes de forma diferente por causa deles?

Naturalmente. Isso é inevitável para todas as pessoas que passam a ter cães como membros da família. As rotinas do dia a dia mudam, as férias e outros momentos de lazer passam a ter outra logística, mas na verdade o que mais mudou é que aspirar a casa passa a ser um desafio mais exigente…

Comunidade

Quando pensas no Bone Appétit, onde é que achas que a nossa comunidade pode chegar?

Espero que chegue a todos os sítios onde haja um cão a precisar de carinho. Espero que chegue a todas as associações, que vivem exclusivamente do trabalho voluntário para acolher e tratar de cães sem família, possam ver reconhecido o seu esforço com mais ajuda e mais adopções.

Quantas pessoas imaginas que vão fazer parte desta família?

Existindo mais de 3 milhões de cães registados, só em Portugal, e sabendo que esta família tem tudo para crescer unida e feliz, imagino um número tão grande que só uma matilha de Border Collies conseguirá pôr em ordem.

A palavra que te vem à cabeça quando pensas nisso é felicidade?

Diria que é amor. O que leva naturalmente à felicidade.

Música – Uma paixão que cresceu

Um dos teus passatempos sempre foi a música. O que começou como um gosto muito pessoal acabou por se transformar no gosto de centenas de milhares de pessoas. Construíste uma curadoria de hidden gems — descobertas musicais de décadas passadas — misturando soul dos anos 70, jazz, groove e outras texturas sonoras para quem procura inspiração ou pesquisa musical mais profunda.

Queres falar um pouco sobre como este projecto nasceu e cresceu de forma tão orgânica?

Sempre vivi rodeado de música, embora não sendo eu músico nem tendo músicos de carreira na família. Mas os meus pais, tios e avós sempre foram melômanos, com vastas colecções de discos e com um gosto muito eclético. E durante a minha adolescência, os meus amigos de bairro e do liceu formaram várias bandas, algumas das quais vieram a ter muito sucesso: Sétima Legião, Heróis do Mar, Madredeus, Peste & Sida, Censurados… e comecei a fazer capas de discos para alguns deles.

E sempre adorei rádio. Ouvia religiosamente vários programas de rádio.  O Som da Frente do extraordinário António Sérgio. Os 5 minutos de Jazz do José Duarte. O Rock em Stock do Luís Filipe de Barros. E o Oceano Pacífico do João Chaves. Lia a Escrítica Pop que o Miguel Esteves Cardoso publicava a partir de Londres e a revista Blitz que a Livraria Barata importava. Ia a todos os concertos ao vivo que podia e todo o dinheiro que conseguia servia para comprar discos.

Comecei, em meados dos anos 80 a fazer mixtapes em cassetes, que começaram a ter sucesso entre amigos e que as copiavam e usavam em festas  e convívios. Fiz centenas de compilações em cassetes, que misturavam géneros musicais muito diversos e que acabaram por  definir o meu estilo de mistura e critério musical. Mas era uma presença muito underground e limitada a alguns bairros de Lisboa.  Até que surgiu o Youtube.

E comecei a fazer vídeos que apenas tinham a capa do disco e a respectiva música, mas com a ideia de construir o meu próprio arquivo digital dedicado à música dos anos 70, que considero ser a era dourada da produção artística da humanidade. Nunca imaginei que muita gente estivesse interessada em ouvir um obscuro tema de funk feito em Lagos – Nigéria, ou um compositor japonês de bandas sonoras de filmes da animação, chamado Yuji Ohno. Estava bem enganado. Com o passar dos anos, e depois de ter sido por duas vezes banido do YouTube – por violação de direitos autorais – tendo perdido todo o acervo reunido, recomecei tudo do zero e o canal continuou a crescer de forma completamente orgânica e com um cada vez maior de apoio da gigantesca comunidade musical que tem vido a ser construída no Youtube. Hoje em dia é uma referência global e levou-me a ser convidado a ter programas próprios na rádio NTS – a mais prestigiada rádio digital do mundo – e na revolucionária aplicação musical ROVR, que se distingue por ser anti-algorítmo e onde toda a selecção musical é feita por curadores como eu.

Cães & Som

O Dexter e a Bolota aprovam o teu estilo musical?

Que remédio…;)

Notas diferenças no comportamento deles quando a música muda?

Ouça sempre música com headphones para que eles possam continuar a dormir descansadamente.

Há sons que claramente funcionam melhor lá em casa?

Som da chave a tintilar (significa que vamos à rua e é o delírio). Som da comida a cair na gamela (delírio). Som de frigorífico a abrir (há sempre a vã esperança que saia algo de lá para comerem). Som do carro da dona a chegar (mais uma vez, é o delírio). Som de mota de distribuição (fúria incontrolável). Som de aspirador (outra vez esta porcaria? Quero dormir!)

A Ponte

Falámos de cães, de família, de ritmo e de escuta. Falámos também de música como companhia. Hoje sabemos que a música não é só para nós. Pode ajudar a acalmar, a criar rotina, a tornar um espaço mais seguro — também para eles. Não funciona igual para todos, mas quando funciona, nota-se.

Por isso pedimos-te para criares o Spotify do Bone Appétit — uma playlist pensada para cozinhar, ficar, esperar e partilhar espaço. Para humanos. E para cães.

Spotify BA

Que géneros é que vamos encontrar nessa playlist?

É uma grande honra e uma grande responsabilidade. Aqui vou ter de abrir a minha selecção para coisas mais universais e que não sejam tão de nicho como faço normalmente. Haverá de um pouco de todos os géneros, do mais clássico ao mais contemporâneo, mas vou privilegiar sons e ritmos leves e que provoquem sensações de tranquilidade, alegria e bem-estar.

E para fechar:
Quatro álbuns que aconselhas para acompanhar as receitas da nossa linda Andreia Rodrigues e a fazer a ementa de Natal — sem pressa, sem ruído, com cães por perto.

O inevitável Pet Sounds dos Beach Boys. Um clássico e uma obra-prima da harmonia vocal. Um dos melhores álbuns de sempre e com o nome mais adequado de sempre para esta função.

Rodrigo Leão – Alma Mater. Um extraordinário compositor, um grande amigo e um amante de cães. Um álbum profundamente comovente.

James Brown – Funky Christmas. Funk e clássicos de Natal reunidos à mesma mesa. Um album que combina suaves baladas soul com o ritmo frenético do grande JB. ” White or black, blue or green/ Even a man I’ve never seen/Let’s get together!”

Rosalia – Lux. Está na moda. Mas é mesmo muito bom e ainda bem que está na moda. Um álbum belíssimo, intimista, tão provocador quanto celestial.

https://www.youtube.com/@andrenavarroII

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