Mário, confirmamos: o teu serviço é mesmo animal.
Durante os 10 episódios do nosso programa, foste tu que trouxeste — a tempo, em segurança e com aquela calma impossível de ensinar — todos os nossos convidados de quatro patas.
Hoje queremos perceber melhor como funciona este universo dos transportes animais, o que é preciso para o fazer com excelência e porque é que tantos tutores confiam em ti para transportar aquilo que têm de mais importante.
Começo da história
Como nasceu o Taxi Animal?
Foi por necessidade, paixão, acaso… ou tudo ao mesmo tempo?
Lembras-te do primeiro cão que levaste? Como foi esse início?
O Taxi Animal nasceu essencialmente de duas coisas: a paixão enorme que sempre tive por animais — especialmente cães — e a necessidade muito real de criar o meu próprio posto de trabalho quando fui obrigado a regressar a Portugal, depois de viver quase 10 anos na Holanda. Foi um regresso inesperado, mas transformei esse momento num ponto de viragem positivo.
Percebi que queria trabalhar com aquilo que realmente me faz feliz, e que havia uma lacuna grande nos transportes seguros para animais. A partir daí, o TaxiAnimal foi surgindo quase naturalmente.
O primeiro cão que transportei oficialmente foi o Hank, um patudo incrível que veio dos Estados Unidos passar férias a Portugal com a sua tutora, a Megan. Lembro-me perfeitamente desse dia — foi marcante. O Hank foi quem inaugurou o serviço e deu-me aquela confirmação interna de que estava no caminho certo. A partir dali, nunca mais parei.
Os bastidores dos 10 episódios
Nós vimos a ponta do iceberg: cães felizes a chegar ao set.
Como foi, para ti, transportar 10 episódios inteiros do programa — raças diferentes, energias diferentes, personalidades diferentes?
Algum momento curioso ou inesperado que possas partilhar?
Lidar com personalidades tão diferentes é algo que, com o tempo, se tornou completamente natural para mim — e, na verdade, é uma das partes que mais gosto no meu trabalho. Cada cão tem o seu ritmo, a sua energia, a sua história… e isso obriga-nos a estar sempre atentos, sempre a adaptar-nos.
Momentos inesperados? Houve alguns (risos).
Um dos mais marcantes aconteceu quando transportava a Patanisca, de repente, a estrada ficou bloqueada por uma mulher descompensada. Ela aproximou-se da carrinha e, sem aviso, deu uma chapada no telemóvel, que voou até à parte de trás da carrinha. Foi uma daquelas situações que ninguém está à espera durante um simples transporte.
Outro momento curioso foi com o Tofu. Ela avisou-me que ele costumava vomitar sempre que andava de carro. Mas, surpreendentemente, nas viagens que fez no Táxi Animal não aconteceu uma única vez. Às vezes acho que os cães também sentem quando o ambiente é pensado para eles e acabam por relaxar muito mais. No Taxi Animal, a segurança é sempre a primeira prioridade — antes de horários, antes de logística, antes de tudo. Cada cão viaja da forma mais adequada para ele e de acordo com aquilo que o tutor prefere, mas sempre dentro das regras de segurança.
Segurança acima de tudo
Toda a gente vê o carro. Mas ninguém vê o que está por detrás da segurança: equipamento, protocolos, experiência.
O que é que faz um transporte animal seguro de verdade?
Quais são as regras que nunca se quebram?
Normalmente, os cães viajam nas suas próprias transportadoras, bem fixas e estáveis, para evitar qualquer risco. Quando o tutor prefere que o cão vá sentado ao seu lado, isso também é possível — mas sempre com cinto de segurança próprio para cães, corretamente colocado, para garantir que o animal fique seguro e confortável durante todo o percurso.
E claro, a minha condução adapta-se sempre ao passageiro que levo: condução suave, velocidade moderada e zero movimentos bruscos. Tudo pensado para que a viagem seja tranquila, segura e sem stress para o cão. Na minha opinião, Portugal ainda tem um caminho importante a fazer na área da mobilidade pet — principalmente no que toca à igualdade de direitos e obrigações entre quem presta este tipo de serviço.


Portugal e a mobilidade pet
Tens uma visão privilegiada: vês o país pelos olhos dos cães e dos tutores.
O que é que mudou nos últimos anos na relação das pessoas com os seus animais?
Notas que Portugal está mais “pet friendly”?
Ou ainda temos muito caminho a percorrer?
No caso do Táxi Animal, eu fui obrigado pela DGAV a cumprir todas as exigências legais: pagar licenças, ter veículos aprovados, cumprir inspeções específicas… tudo para garantir que os animais viajam em segurança e dentro da lei.
E eu concordo que deve existir regulamentação — desde que seja igual para todos.
O problema é que, ao mesmo tempo, serviços como Uber Pet e Bolt Pet não estão sujeitos aos mesmos requisitos. Os carros e os motoristas dessas plataformas não passam pelos processos que um transporte especializado precisa de cumprir. A lei, tal como está, acaba por proteger as plataformas através das autorizações que lhes foram dadas, criando um claro desequilíbrio.
O governo devia fazer uma de duas coisas: ou acaba com o Uber Pet, ou cria uma legislação única e justa para todos.
Porque neste momento não é. E quando falamos de transportar animais — seres vivos, sensíveis e vulneráveis — a segurança não pode depender de exceções ou de lacunas na lei. Devia ser igual para todos.Transportar cães de raças diferentes não é, para mim, um desafio — é exatamente o mesmo conceito que transportar pessoas de etnias e países diferentes todos os dias. Cada indivíduo é único, mas o respeito e o cuidado são sempre iguais.
A diversidade dos passageiros
Transportaste Jack Russel, Goldens, cães pequenos, cães grandes, cães tímidos e cães estrelas de TV.
Há diferenças grandes no comportamento no carro?
Como é que tu lidas com personalidades tão diferentes?
Ao longo do tempo já transportei muitas figuras públicas internacionais e sempre apliquei o mesmo princípio: profissionalismo, calma e foco no bem-estar de quem está comigo no veículo. Com os cães faço exatamente o mesmo. Independentemente da raça, do tamanho ou da fama, todos merecem ser tratados com o mesmo cuidado.
No fim, o meu objetivo é sempre o mesmo: sentir a felicidade de cada cliente, seja humano ou animal. É isso que dá sentido ao Táxi Animal e a tudo o que faço. O lado emocional do meu trabalho é, sem dúvida, muito forte. As partes mais difíceis são sempre quando os cães e os seus tutores estão a passar por momentos delicados, normalmente associados a problemas de saúde dos animais.

O lado emocional
Não é só logística.
Há sempre um componente emocional — do tutor, do cão, e até teu.
O que é que mais te marca neste trabalho?
Há algum cão que nunca te esqueças?
Um dos momentos mais desafiantes é quando faço a última viagem rumo à eutanásia. São momentos extremamente complicados para os donos — e para mim também. É impossível passar indiferente a situações assim. Cada viagem dessas deixa uma marca, porque lidamos com vidas, afetos e emoções muito profundas.
Ao mesmo tempo, é esse contacto direto com os animais e com os tutores que torna o trabalho tão especial. Cada sorriso, cada momento de alegria, cada cão tranquilo no carro é um lembrete do valor do que fazemos.
Os teus próprios animais
Tens animais teus?
Eles influenciaram a tua decisão de criar o Taxi Animal?
Que impacto tiveram na forma como trabalhas hoje?
Tenho duas cadelas: uma Cacau, que é uma perdigueira portuguesa, e a filha dela. Ao longo da minha vida já tive vários cães, e a experiência que fui acumulando com eles foi fundamental.
Na verdade, foram os meus próprios cães que me deram o primeiro treino para o Táxi Animal. Tudo o que aprendi a fazer com eles — desde lidar com diferentes temperamentos, rotinas, cuidados e segurança em viagens — quis depois aplicar no projeto. Sem essa experiência prática com os meus cães, dificilmente teria conseguido criar um serviço tão dedicado e seguro para outros animais.
Eles foram, portanto, os primeiros “clientes” do Táxi Animal e continuam a inspirar o meu trabalho todos os dias. Tenho vários objetivos para o Taxi Animal.
Crescimento e futuro
O serviço cresceu, ganhou notoriedade e, agora, fez parte de um programa de televisão.
Qual é o futuro do Taxi Animal?
Mais serviços? Mais tecnologia? Mais abrangência?
O primeiro é consolidar e implementar a marca em Portugal, tornando-a reconhecida como referência em transporte seguro de animais. Quero também promover o serviço no âmbito do turismo, ajudando visitantes a desfrutar do país sem preocupações com os seus pets.
Outro objetivo, que neste momento ainda é mais uma utopia, é criar ambulâncias especializadas para transporte de animais, equipadas com médicos veterinários a bordo. A ideia seria prestar primeiros socorros antes da chegada aos veterinários, funcionando através de uma associação sem fins lucrativos, para poder servir toda a população de Lisboa e arredores.


Comunidade Bone Appétit
A nossa comunidade tem muitos tutores que dependem de boleias, urgências, idas ao vet, groomers, treinos, parques, tudo.
Achas possível criarmos juntos um formato especial para ajudar quem precisa — seja com transporte regular, dicas de segurança ou até um mini-guia “Como viajar bem com o teu cão”?
É um projeto ambicioso, mas que acredito poder concretizar no futuro. Por enquanto, é algo que já existe na minha visão e que quero desenvolver mais tarde, sempre com a segurança e o bem-estar dos animais como prioridade máxima.
Acredito que estamos a avançar no sentido certo para criar as melhores condições possíveis para donos e pets. No entanto, começar um projeto como este é sempre um grande desafio, sobretudo pelo fator económico.
Leva tempo a alcançar estabilidade financeira, e essa segurança é absolutamente necessária para que qualquer empresa sobreviva. Sem ela, é muito difícil manter um serviço de qualidade — ainda mais em Portugal, onde o apoio do Estado para iniciativas deste tipo é praticamente inexistente.